Porque 87% das pessoas responderam que "se matariam"​ de trabalhar?



         "o que é trabalhar demais?"

 

Pessoas "se matam" de trabalhar porque querem "se matar" de trabalhar. Não tratarei de trabalho escravo neste artigo, restando assim aquelas pessoas que trabalham demais por opção própria. Pode-se decompor essa questão em duas mais simples: i) o que é trabalhar demais e ii) porque alguém quer isso?

 

O que é trabalhar demais para você? Para aqueles que estão na linha de frente da COVID, pode ser trabalhar sem parar por dias a fio em condições de máximo estresse. Para os analistas da área de Investment Banking da Goldman Sachs é trabalhar 100hrs por semana (NOTA 1). Honestamente, não dá nem para comparar os dois: um tem vidas lhe escapando pelos dedos, o outro vive a miséria e agonia das transações de M&A. Um se divide entre pacientes, o outro pula de um PowerPoint para um Excel para um conference call. Um está incrivelmente aparamentado na UTI de um hospital , o outro em ambiente climatizado no local mais valorizado da cidade tomando um latte. Enquanto nenhum dos dois está dormindo muito, o conceito de tombstone (NOTA2) para eles não poderia ser mais diferente. Entre estes dois extremos, há muita gente que trabalha demais.

 

"Trabalhar demais" tem significado diferente para cada um, e até mesmo para a mesma pessoa em etapas diferentes da sua vida. Não me lembro de ter encontrado alguém que achasse que não trabalhava muito. Alguns jovens trabalham e estudam 7 dias da semana, enquanto outros encontram uma jornada de 5 dias insuportável. Você já viu a rotina de um atleta de alta performance? Aquele que trabalhou a vida inteira pode achar demais trabalhar um dia da semana na sua aposentadoria. Uns enfrentam grande estresse físico, para outros o estresse é mental. Estranhamente, todos trabalham demais, embora tenham ritmos de trabalho totalmente diferentes.

 

Nessa hora sempre tem alguém que fala em equilíbrio! Mas aonde está este equilíbrio? Quem é? Onde vive? O que ele come? O equilíbrio é dinâmico, e depende da sua etapa de vida, seu momento de carreira e as oportunidades que se apresentam. Não quero dar uma de poeta, mas para mim o equilíbrio está justamente no desequilíbrio: há momentos para se trabalhar mais, e em outros momentos temos outras prioridades: saúde, família, amigos, um relacionamento, construir um mundo melhor.

 

Visto que todos nós trabalhamos demais, porque fazemos isso? Trabalhamos demais porque temos expectativas! 87% das mais de 1.800 pessoas que responderam a minha pesquisa aqui no LinkedIn "se "mataria de trabalhar" por [5-10] anos se acreditasse que esse investimento te traria tranquilidade nos próximos [20-50] anos". Imagine quantos se "matariam de trabalhar" se a recompensa fosse garantida! A expectativa nos move... a expectativa de salvar vidas, de ser bem pago, de se desenvolver em uma profissão, de uma promoção, de impressionar alguém ou ganhar uma medalha na olimpíada. Como nossas expectativas mudam ao longo do tempo e com a idade, é natural que nosso conceito de "trabalhar demais" e de equilíbrio também mudem.

 

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Segundo o Gladwell em seu livro "Outliers", alcança-se a proficiência com10.000 horas de dedicação (NOTA 3). Tanto prática quanto conhecimento técnico demandam dedicação, e algumas carreiras demandam os dois. O tempo de experiência e prática faz muita diferença para músicos, médicos, bankers e atletas de alta performance (entre outros). Dependendo da sua opção de carreira, fará muito sentido trabalhar 14 horas por dia (em vez da tradicional 8 horas) para acumular as 10.000 horas em até 60% do tempo dos seus concorrentes (NOTA 4).

 

Mas a vida não se resume a quilômetros rodados e velocidade. E o tal equilíbrio? Como a vida está mais para uma maratona do que uma corrida de 50 metros, não adianta acelerar demais, burn-out, e ficar sem forças para terminar a jornada. O tal equilíbrio dinâmico e de longo prazo, é viver cada momento e cada oportunidade plenamente, não deixar a vida passar. Para mim, "se matar" de trabalhar/brincar/estudar é dar o seu melhor em tudo que fizer, um pouquinho antes do burn-out. E se toda essa energia for para algo que eu amo (NOTA 5), eu "me mato" mesmo, sem olhar para trás.

 

"buscar sentido no que você faz... em vez de passar uma vida buscando algo que faça sentido"

 

Para ajudar a entender:

 

NOTA 1: Se você não acompanhou, os analistas da divisão de investment banking da Goldman Sachs em Nova Iorque se rebelaram contra o banco e contra cargas de trabalho que chegam a 100hrs semanais. Fizeram e publicaram uma pesquisa de clima, veja detalhes aqui: https://www.cnbc.com/2021/03/18/goldman-sachs-junior-bankers-complain-of-crushing-work-load-amid-spac-fueled-boom-in-wall-street-deals.html

 

NOTA 2: os investment bankers selam o fechamento de uma transação com um tombstone, que significa lápide em português. Exato! A lápide do cemitério... É uma alusão à "morte" da transação que fechou.

 

NOTA 3: Malcolm Gladwell, no seu livro OUTLIERS (Fora de Série, em português) defende que para se chegar à proficiência em qualquer atividade, precisamos nos dedicar 10.000 horas.

 

NOTA 4: 10.000 horas dividido por 8 horas por dia e 251 dias úteis em um ano dá quase 5 anos de dedicação diária. Se aumentarmos a carda horária para 10 horas, você vai se tornar um especialista em 4 anos. A indústria de investment banking trabalha com ciclos de 3 anos - sempre foi assim.

 

NOTA 5: "amor" também é relativo, concorda? Impossível amar tudo que você faz, todo o tempo. Todo trabalho envolve coisas chatas e desestímulos, portanto pode parecer mais fácil dizer do que fazer... Mas... Eu devia ter uns 7-9 anos quando eu li na traseira de um caminhão: "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho". Claramente me marcou. E eu sei que nem todo mundo trabalha com o que ele/ela ama pois temos contas para pagar. Mas recomendo para todo mundo buscar sentido no que você faz, em vez de passar uma vida buscando algo que faça sentido. É muito mais fácil construir esse "amor" do que encontrá-lo. Fácil não é, mas é uma alternativa melhor ao mimimi que leva o nada a lugar nenhum.

 

José Securato é CFO do digio, trabalha em investment banking, fusões & aquisições, valuation e capital raising desde 1998 e fundou a Saint Paul Advisors em 2013.

 

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